quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

"Piratas" hei de ser até morrer

Saindo de um navio pirata que encalhou na boca da avenida, corsários invadem a Floriano Peixoto, e com um único tiro de canhão colore de confete e serpentina a multidão, arrastada por afinados músicos de sopro e percussão. Fausto Costa, Elesbão, Edésio, Zeca, Vanderlei Navega, Veiter, Baltair e Lili Moreira conduzia na cadência do samba a galera que cantava com todo seu íntimo o amor de Luciano pelo bloco: “Enquanto existir você Piratas, eu hei de ser até morrer. Você é quem me dá alegrias Piratas, você é quem me dá prazer. Deixa falar que eu ligo não, quero abrilhantar o meu cordão. Quando vejo as cores preto, encarnado e branco, sinto alegria no meu coração...”. Porta estandartes e bandeiras vestiam com galhardia o manto rubro negro ornado com finas lantejoulas, paetês, vidrilhos e rendas francesas. Zeir, Marli Sarzedas, Maria Joaquina, Chichica, Selma, Janete Neto, Nanci Ade e Lurdinha envolviam turistas e foliões numa reluzente áurea de graça e magia. Acompanhados por uma nuvem de mariposas fototrópicas que rodopiavam sobre as reluzentes bengalas incandescentes, os balizas preservavam sua companheira e o estandarte por ela carregado. Samuel Donegati, Almir Lagoas, Betinho e Geraldo Coutinho encantavam os foliões com um bailar parecido com as aristocráticas danças de salão, cortejando com seus leques coloridos o fascínio das suas portas estandartes. Também originário dos “Filhos da Lyra” da lendária porta Zilda do Vale, o Piratas nasceu na casa de Osório Souza em março de 1947. Há quem diga que o nome do bloco surgiu do “Pirata da perna de pau, do olho de vidro e da cara de mau”, sucesso de Braguinha cantado por Nuno Roland no carnaval daquele ano. A “galera” com garotas na guarnição se concentrava no Poço Verde antes de tomar de assalto a avenida. Até a construção de sua sede, onde Erasmo Carlos chapado de aguardente “Centenária” só conseguiu cantar duas músicas, a Escola Ferroviária 28 de Fevereiro foi palco de animados bailes, festas de formaturas e concursos de beleza. Noel Rosa, Emilinha Borba, Chiquinha Gonzaga, Ary Barroso, Lamartine Babo, André Filho e tantos outros compunham o que o Rio de Janeiro e Brasil cantavam sob a inebriante névoa dos lança perfumes. O regime de exceção instalado em 64 incomodado com a malícia das suas letras calou suas vozes e as saudosas e lentas marchinhas pararam de vez. No centro de Cachoeiras o duelo era inevitável, Perna Fina remoinhando sua capa azul e Samuel volvendo seu manto vermelho riscavam com seus leques aquelas perfumadas noites, entrelaçando num compasso singelo, a querela e a paixão, pra delírio da multidão. Segundo a lenda, Cupido criou o leque ao arrancar uma asa de Zéfiro, deus do vento, para refrescar sua amada Psique enquanto dormia. Até o romano Baco ou grego Dionísio reinar, na oficina da Leopoldina Luciano Santos e Enedir Gonçalves, já brincavam com provocações, e numa dessas Calixto profetizou: “Quem é você pra desacatar meu improviso, quem é você pra me dar aviso. Quem é você pra cantar perto de mim. Você diz que tem anel, você diz que é bacharel, mas você representa um falso papel. Você só dá palpite infeliz. Oh! Meu amigo, você não sabe o que diz”. Embora a cordialidade e a alegria regessem alguns contra tempos atravessavam a avenida. A veterinária ainda “caminhava” naqueles tempos, e nada pode fazer pelo Cavalheiro morcego com fratura exposta na asa esquerda, depois de um “arriar cordas” com o flibusteiro Dino Cascudo. Sentado a bombordo da embarcação um macambúzio pirata chora aos cântaros uma paixão. A filha de um comerciante, vestida de azul e branco, não lhe dava bola por ser vermelho preto. Gelson Fontes que ergueu a sede própria, Luciano dos Santos, Doca Monteiro, Dalmo Coelho, Fernando Sapateiro, Jason Peixoto, Ivan e Batista Brandão, Derli Pinto, Deco, Zizinho Monteiro, Érico, João Fagulha, Élson Bodega, Enéas, Banana Ouro, Caíco, Paulinho Ferraz, Carlos Valadares, Pinduca, Cleir, Rosinha Califfa e muitos outros amaram o Piratas incondicionalmente. Responsáveis pelo esplendor do bloco - Ozorina, Marilena, Zelina Ferraz, Luiza, Maria Emília, Odilon Cerqueira, Celeste, Jacy e Luiza Reis, Esther, Ordália, Natalina, Sucena Ade, Leontina, Eurídice Neto entre outras costureiras e bordadeiras voluntárias - guarneciam os veludos, sedas e cetins que deslumbrariam nas noites de carnaval olhos curiosos de caçadores, cavalheiros e animados foliões. A bordo do navio agradeço a Nanci Ade, Marilena Pinheiro, Paulinho Ferraz, Tãozinho, Marilene Donegati, Belclair e Odilon Jones pela gostosa viagem àqueles tempos em que o lendário Calixto atracou pela última vez no paraíso das águas cristalinas. (Jornal Cachoeiras 25 02 2012)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Amor, brilho e paixão - "Cavalheiros do Luar"

O frenesi tomava conta do então Paraíso das Águas Cristalinas quando as aguardadas fantasias em azul, branco e vermelho entravam na folia, protegidas por morcegos que afastavam do caminho, índios, mascarados, colombinas, arlequins, pierrôs, lobisomens, vampiros e foliões. Os arrepiantes quirópteros, desfilando na frente do cordão de isolamento, agitavam sem parar os dactilopatágios de suas asas, para que o luxo e a beleza das fantasias, que inebriavam de luz as ruas da cidade, desfilasse. Bengalas incandescentes aceravam o brilho e o glamour das portas estandarte e bandeira, dos destaques infantis e das fileiras de damas e cavalheiros, revelando após meses de tensão o encantamento contido em seus corações. A exuberância e o fulgor de Lidinha, Maria José, Reni, Ivete, Eli Suppo e Nêga eram conduzidos com leveza pelo leque do “baliza”, que estadeava uma capa aveludada em plissé, presa no dedo por uma argola. Perna Fina, Vital Neblina, Ezequiel e Esirlei ditavam na cadência afinada dos músicos o compasso da porta estandarte, que trajava uma fantasia inédita que vestiria a porta bandeira do ano seguinte. No auge da folia, anáguas guardadas a sete lantejoulas, mostravam de relance, discretos bordados, para desatino de cavalheiros e simpatizantes e inveja das concorrentes. O clube nasceu de encontros, chás, livros de ouro e mutirões e, é lógico, dum esquenta bateria do comércio local. Lanches coletivos e refrescos de groselha embalavam o ritmo da alta costura. Célia, Ivete, Mercedes, Glória e muitas outras bordadeiras mantinham bem longe de Piratas e Caçadores os seus segredos de linhas e pedrarias. Muitos matrimônios felizes e outros nem tanto, nasceram de provas de amor proferidas nas perfumadas noites azul e branca. Houve tempos em que moças e rapazes que se “engraçavam” pelas cores rivais, perdiam o rebolado no bloco, quando não sofriam repreenda familiar pela ousadia. Mesmo parentes, se de blocos diferentes, não podiam se encontrar nos meses que antecediam a grande festa. Ser uma musa daqueles carnavais não era pra qualquer uma, era necessário dote, requebros e um generoso padrinho, suas fantasias eram adornadas com material trazidos da Europa. Bons tempos aqueles em que águas cristalinas refrescavam o carnaval e a ardente “centenária” mexia com a cabeleira do Zezé, que meio chapado não parava de cantar: “me dá um dinheiro ai” ou “você pensa que cachaça é água”. Em todo lugar, “as águas vão rolar”, não saía da boca do povo. E rolaram. Pouco tempo depois, o golpe de 64 matou o sonho e calou a voz do cavalheiro Enedir Gonçalves que compôs “Cachoeiras meu torrão” em 1947 - ... Vem ver de perto a lua, e quem passa pela rua, vê o traço de união, salve Cavalheiros e Piratas que são filhos do mesmo torrão. Quando as cordas de isolamento se roçavam, as afrontas eram inevitáveis, mas prevalecia a cordialidade e o bom senso. Em casuais encontros, o cordão era arriado em reverência ao “irmão” que passava, e a emoção tomava conta do pedaço quando trocavam de baliza que por alguns instantes regia a porta estandarte adversária, num singelo gesto cavalheiresco. Agnaldo, Uriel, Ariosaldo, Orácio, Ilma, Alcides, Chichica, Nicomedes, Luiz Fren, Adelino, Ademar e tantos outros foram Cavalheiros do Luar com intensidade e paixão. O bloco venerava seus ilustres integrantes, sambando até as suas residências, numa reverência toda especial. Cachoeiras de Macacu tinha o melhor carnaval do antigo Estado do Rio. A pensão da Dona Niza em Boca do Mato lotava de turistas, principalmente homens, levando as curiosas beldades cachoeirenses a um discreto passeio naquele balneário. Com a morte da ferrovia, a cidade perdeu o encanto e o carnaval não mais viu os Caçadores, Cavalheiros e Piratas. O esporte ficou sem o São José, Independente, Ipê e Onze Unidos e a cultura submergiu com a falta do SENAI, Liceu, Cine Virgínia e Brasil. Na próxima edição do Jornal Cachoeiras um navio pirata ancora em Macacu, tomada de assalto pelo preto, vermelho e branco. Agradeço com alegria a Adelino de Jesus, Nilcinea, Esirlei Silva, Manoel Melchior, Alaíde, Dulcineia, Marcos Souza e Rui Coelho pela paciência que tiveram, mexendo o fundo do baú e trazendo para a atualidade um tempo que com o tempo se vai. (Jornal Cachoeiras 11 02 2012)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Flechas e canhões no embalo dos Caçadores

O safári teve início quando, do Bloco do Boi, surgiu os Caçadores. Algum tempo depois Chico Pinto praticamente doara o terreno onde foi edificada a sede, ele sonhava com os Caçadores disputando com Pitaras e Cavalheiros a hegemonia daqueles carnavais. O povo ergueu-o em tempo recorde com campanhas e mutirões, como do cimento, do alicerce, da feijoada e do angu à baiana, ajudando Waldemiro Goulart e sua equipe, que de tijolo em tijolo realizava aquele sonho. O bloco cresceu tanto que não suportou o peso do seu estandarte, sucumbiu com o tempo, como aconteceu com os coirmãos. Das vezes que botava o bloco na rua, a cidade viajava dentre as matas, travestida de silvícolas, caçadores e animais selvagens para encantamento de moradores e turistas. O Campo do Prado era só contentamento, o arrastão ia até o final da Av. Roberto Silveira e voltava empolgado em direção ao Centro, carregando seu pavilhão na cadência dos seus músicos. Na Av. Floriano Peixoto o povo já saçaricava com lata d’água na cabeça e cantava daqui não saio daqui ninguém me tira, pro general da banda que passava. A cordialidade e a simplicidade eram a marca dos “Caçadores”, narrada na marchinha de Nelson Fonseca em homenagem ao azul e branco e ao vermelho e preto: Confetes rolando no chão, serpentinas subindo com o esplendor, aceitem Cavalheiros e Piratas a saudação de um Caçador... As cores das fantasias, com base verde e amarela, brincavam de acordo com o enredo e “Caroço” musicava com maestria os arranjos que dançaricava o bloco ladeira abaixo. Flechas, arcos, tacapes, facas e espingardas, tomavam conta da cidade e bonitas indumentárias mostravam de forma harmônica a natureza, seus encantos e sua magia. O clima esquentava quando no fastígio da empolgação os caçadores apontavam o canhão, e num certeiro tiro, envolvia de coloridos confetes, concorrentes e multidão. Enquanto isso entre índios e caçadores, Euzébio Cunha, vestindo um dantesco gorila, botava pequenos foliões pra correr. O primeiro carnaval do clube foi na Fundação Anchieta, depois no Sindicato da Leopoldina e os outros na sede própria, palco de memoráveis bailes e saudosas apresentações de famosos do rádio. A belíssima Selma Cupti, eleita a “Rainha das girls” no Teatro de Revistas do Carlos Gomes na Praça Tiradentes, foi reverenciada pelos Caçadores numa noite apoteótica, em uma das pouquíssimas homenagens que sua cidade lhe prestou. Clóvis Bornay e Wilza Carla também subiram as escadas daquele salão, exibindo luxuosas fantasias no tempo do presidente Armando Veloso. Local onde “Cinzas de amor”, interpretada por Nelson Gonçalves, já vaticinava a proximidade do fim daqueles bons carnavais. Suas matinês eram concorridíssimas. Embebedados com pipoca e guaraná, curumins, colombinas, palhaços, pierrôs e piratas mirins, soltavam sua singeleza no salão, embelezando as inocentes tardes de carnaval. A sede própria poliesportiva com piscina semiolímpica, ficou só na imaginação. Figuras de destaque como as portas estandarte Nira e Selmi e o baliza Gaspar, encantavam a platéia na evolução do bloco, dando um brilho particular aquela festa pagã que acabava em penitencia, na dor da quarta - feira de cinzas. As fantasias eram confeccionadas por Almerina, Neuza e outras imbuídas por um amor incondicional ao Clube dos Caçadores e com precisão ornavam coloridos veludos e cetins com lantejoulas, miçangas e paetês. Fernando Veiga, Deco, Darino, Zeca Botina, Nelson Dedeia, Hugo Garcia, Gatinho, Bira, Babá, Vadinho, Ermelino, Seda, Ademarina e tantos outros são singelas personagens de um tempo rico em história e tradição. Dos Caçadores quase nada restou. Perdeu sua coroa, ficou sem estandarte e acabou sua fantasia, só restaram poucas lembranças que o tempo teima em levar. Na próxima edição do Jornal Cachoeiras a Lua será testemunha daquelas apaixonadas noites dos Cavalheiros do Luar. Agradeço com o estandarte na mão a Nelson Fonseca, Nilsete, Derli e Neide. Sem eles este enredo não teria evoluído. (Jornal Cachoeiras 04 02 2012)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O samba pede passagem com Mulinha, Garrucha e DKW

Depois do alvorecer um longo apito ecoava pelos quatro cantos da cidade, acordando os operários para mais um dia de trabalho. Torneiros, ajustadores, caldeireiros, ferreiros, marceneiros e tantos outros corriam apressados pra oficina da Leopoldina – era deles a responsabilidade de manter os trens no ritmo. Entre apitos e fumaças, partidas e chegadas, o carnaval da cidade desfilava com a ferrovia. De fevereiro a fevereiro, mãos habilidosas em paetês, miçangas, vidrilhos e lantejoulas, teciam ricas fantasias em azul e branco, verde e rosa, e vermelho e preto, mantidas a sete chaves até a hora do desfile. Com a chegada dos trens os galanteadores da época corriam para a estação, na expectativa de um belo rosto feminino vindo de algum lugar. Cavalheiros do Luar, Piratas e Caçadores desfilavam entre confetes e serpentinas, embalados na fragrância dos lança perfumes franceses da Rhodia. Não eram incomuns confrontos nada amistosos quando suas cordas de isolamento se roçavam na avenida. Originalidade não faltava na festa. Figuras excêntricas tiravam no afã da folia as máscaras do cotidiano, estereotipando personagens na cadência daquele ritual pagão. A irreverência adornava a passarela com Patola, sua mulinha e seu boi, deixando em pânico a criançada. Pequenos blocos como o dos “Bichos”, “Estamos aí” e “Tamica” entre outros, prenunciavam o espetáculo de cores e beleza que envolveria a cidade. Binárias marchinhas como Bandeira Branca, Touradas em Madri e Chiquita Bacana falavam com ironia do cotidiano, de forma humorada da sexualidade e de fatos importantes da atualidade, embalando os passageiros de primeira e segunda classe nos enredos da folia. Até o velho Macacu caía na brincadeira desnudando corpos suados em papel crepom, que coloriam no apogeu do “banho a fantasia” suas águas cristalinas; acalorados por uma afinada bandinha tocando em cima da velha ponte. Nosso carnaval também sofreu a ação do tempo, perdeu sua originalidade e se transformou num emaranhado de estranhos ritmos onde o samba atravessado teima em ficar, longe dos olhos da colombina, das lágrimas do arlequim e da máscara do pierrô. Perfumado pela “Rodouro”, proibido por Jânio Quadros em 1961, o carnaval antigo transpirava amor, paixão e romantismo. Em plena Rua Floriano Peixoto, Cavalheiros e Piratas se envolviam numa momesca e respeitosa pugna diante dos olhos julgadores da consciência popular, os profissionais da estrada de ferro torciam naturalmente para o vermelho e preto. Em raros momentos de tensão as cordas de isolamento arriavam e algumas diferenças eram acertadas. A modesta iluminação pública era reforçada pelas bengalas de fogos incandescentes, acentuando a beleza, o brilho e todo o glamour das fantasias que o abandono levou. O trem se foi, o rio secou, a ponte caiu e o arlequim não mais chorou nos braços da colombina que partiu. Restou a saudade e a lembrança que o tempo, fora de compasso, tenta apagar. Nas próximas edições do Jornal Cachoeiras o espetáculo continua, mostrando parte da história e particularidades dos tempos em que “a colombina andou de Vemag”, “João Badeia foi chifrado por um boi”, e “a enferrujada garrucha que Alberto Goela vendeu engasgou”.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Os vulneráveis filhotes

Após o desmame terão pela frente um grande desafio, até que se tornem adultos. Invisíveis agentes de perigosas enfermidades atentarão para os seus corpos frágeis ainda em formação. Adquirem nos primeiros dias de vida, através do aleitamento, o restante dos anticorpos maternos. Uma pequena parte já circula em seus organismos, obtidos via placenta na gestação. Condições como tamanho da ninhada, estado imunológico da mãe e desvantagens competitivas com os irmãos, tem relação direta com o grau de imunidade. Os mais fracos de uma prole numerosa e de uma mãe com dificuldades imunológicas, certamente possuirão títulos menores de imunoglobulinas conferidos pelo colostro, que logo acabarão. Se medidas de proteção, através da vacinação não forem adotadas, microrganismos letais estarão à espreita. Um programa adequado de vacinação confere-lhes uma barreira protetora, salvaguardando-os desses agentes deletérios. A primeira dose de vacina é insuficiente, aqueles anticorpos adquiridos da mãe quando mamaram, não conseguem distinguir os vírus conferidos pela vacina dos que circulam no meio ambiente, atacando-os. Daí a necessidade dos reforços a intervalos curtos nos primeiros meses de vida. Quando optamos pela guarda de um animal assumimos um compromisso com a vida e passamos a ser responsáveis pelo seu bem estar. É de bom senso que o respeito seja inviolado, maltratar um animal é atentar contra a natureza e contra a criação Divina. Mantê-los num espaço controlado não os farão menos felizes. O cão semi-domiciliado, aquele que tem casa, mas dá umas voltas, pode ser portador de doenças adquiridas com outros que encontrem pelo caminho, onde confrontos pelo acasalamento, disputas territoriais e uma mordida aqui e uma lambida ali não são infrequentes. As zoonoses, doenças comuns a homens e animais, podem por eles serem transmitidas. O canil cárcere e a corrente perpétua, nem pensar. Além de evidenciar uma atitude desumana são relacionadas à depressão, psicoses, automutilação, fobias e agressividade descontrolada. Abusos sofridos na tenra idade, justamente no período de socialização, marcam sobremaneira sua saúde emocional. Por não terem os defeitos psicológicos que carregamos, eles não violam o processo da convivência. Não adotam atitudes antinaturais. Amam, confiam e se doam incondicionalmente. (Jornal Cachoeiras 14 01 2012)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O último apito - l

Andar de trem na exuberante serra de Cachoeiras de Macacu era impressionante, umbaúbas prateadas refletiam a luz da lua, quaresmas floridas davam um toque frugal às matizes verdes da paisagem e águas cristalinas corriam a procura do Macacu, sem falar do visual, que só pela ótica dos trilhos era possível vislumbrar. Mesmo com o tempo encoberto estar sentado na poltrona verde da primeira classe, ou no desconfortável banco de madeira da segunda, não era menos emocionante; sob cerração sentia-se até um “frescor” londrino. Passageiros daquela época ficavam apreensivos com a proximidade da “curva do leão”, perto de Teodoro de Oliveira e não era pra menos, a 107 em condição de “escoteira” deu seu último apito, quando sozinha despencou no abismo, dizem que o maquinista abandonou o posto. Foi resgatada algum tempo depois. A 106 não teve melhor sorte: descontrolada, mergulhou no mesmo lugar. No Valério um vagão, que transportavam cimento caiu e desapareceu, misteriosamente, em suas águas. Há quem diga que a explosão de uma caldeira na estação de Boca do Mato ressoou como um pavoroso estrondo por entre as montanhas e que duas mulheres foram surpreendidas no meio da ponte do rio Pomba, pelo trem conduzido por Manduca, um maquinista vindo de Registro. Uma se jogou no precipício e a outra teve as mãos decepadas, tentando segurar-se nos trilhos de bitola estreita antes de cair. Acidentes acontecem até com os transportes mais seguros e não seria diferente com o trem. O pior que se tem notícia no Brasil aconteceu em Aracaju (SE), com 185 mortos na década de 40, por descarrilamento em velocidade excessiva. No mundo, é sem dúvida o de Peralyia, no Sri Lanka em 2004, com 1700 vítimas após um terremoto seguido de tsunami, superando o de Bihar na Índia onde 800 pessoas morreram quando uma composição desceu duma ponte para não atropelar uma vaca. O primeiro sistema a operar na serra cachoeirense - trazido pelos engenheiros ingleses - veio dos Alpes, região fronteiriça entre França e Itália. Era utilizado para transpor o monte Cenis, aquele que Carlos Magno atravessou com seu exército no ano de 773 para invadir a Lombardia. Suas locomotivas empurravam os vagões, por isso não tinham farol. Ouvi dizer que os britânicos sentavam no panorâmico vagão da frente, pitando seus fedorentos cachimbos serra acima. Estas máquinas foram substituídas a partir de 1883 pelas também inglesas “Baldwin” de aderência total, da North British e operavam com uma distinta função relacionada à frenagem, dezenas de toneladas comprimiam o terceiro trilho, evitando assim a patinagem. Nestas máquinas, o trilho guia funcionava também como um freio adicional.

O último apito - ll

As robustas locomotivas adaptadas aos terrenos íngremes e sinuosos levavam seus vagões, de dois em dois, até quase mil metros de altura em Teodoro, onde, novamente, contíguos seguiam viagem, puxados por uma máquina tradicional. O sistema fell de tração por cremalheira, implantado em 1873 era constituído além dos dois carris tradicionais, de mais um trilho, onde atuavam rodas horizontais dentadas, funcionando como tração auxiliar. Foi posteriormente modificado pela Leopoldina Railway para sapatas de frenagem especial. Nas estações, enquanto os freios da Baldwin de configuração 0-6-0 eram reparados, ambulantes vendiam pastéis, bolinhos de aipim, pinha (biribá) e banana-ouro aos seus ilustres passageiros. A sórdida e inconsequente política brasileira, a ganância empresarial do setor de transportes e a mão perniciosa do tio Sam, acabaram com o nosso trem. Se o ressuscitarão, só outras gerações saberão. Os que dele fizeram parte, onde estiverem, sentirão sempre emoção ao lembrarem-se do “rápido”, do “jaú”, do “expresso” e do “passeio”, deslizando na bitola métrica rumo à capital. Os ferroviários que partem, levam consigo parte da história da cidade, deixando um vazio em sua memória. Muitos sentem falta da bucólica estação de Cachoeiras de Macacu, da oficina, do armazém, do SENAI e do Liceu. Outros, sonham com a construção de um museu ferroviário e os mais românticos com uma leve e pequena locomotiva “fell”, encantando turistas numa praça da cidade. Por ironia do destino, hoje dependemos dos ônibus passantes para chegar ao Rio e a Niterói. Se o leito não fosse desativado estaríamos, quem sabe, na expectativa de um VLT (Veículos Leves sob Trilhos) que serão implantados em algumas cidades. Melhor sorte teve o ramal de Cataguases, escolhido por Antônio Erminio de Moraes para transportar bauxita da sua mina em Barão de Camargo (MG) até B. de Angra (RJ), onde hoje repousa a nossa saudosa 103. Meus agradecimentos a Antônio Peril da Silva Filho, Carlos Donegatti, Dalmo da Silva Bastos, Décio Ade, Ivo, de Boca do Mato, Zaly Alves de Azevedo e meu querido pai Taciano Rocha Filho, por, gentilmente, terem contribuído para a efetivação deste trabalho. (Dica: “A rota do indivíduo – ferrugem” – Djavan) (Jornal Cachoeiras 07 01 2012)