sexta-feira, 19 de maio de 2023

A maior epidemia

A maiorepidemia • Dr Ronaldo Rocha Doenças endêmicas são aquelas de incidência constante em um determinado local, como a malária e a febre amarela na região amazônica; as epidêmicas são mais abrangentes, envolvem áreas mais populosas, a dengue é um exemplo; nas pandêmicas sua amplitude é transcontinental, como foi a gripe espanhola que vitimou o presidente Rodrigues Alves, a peste negra que dizimou quase metade da Europa e a recente covid. A crescente interferência humana no meio ambiente, desestabiliza o seu ciclo vital; são alguns exemplos, a monocultura, a ocupação desordenada do solo, o garimpo sem controle e a queimada na floresta. São agressões que causam perda da biodiversidade, levando ao homem e outros animais, agentes de enfermidades como as protozooses e arboviroses. A febre maculosa, veiculada pelo carrapato estrela, embora de baixa letalidade, pode ser fatal, se não houver precocidade no diagnóstico. A hantavirose transmitida pelos ratos, cresce em algumas regiões, e as Leishmaniose, inicialmente silvestre, hoje, um grande problema de saúde pública no mundo, tendo nos conglomerados urbanos, o cão como reservatório. A Dengue fora de controle, transmitida pelo Aedes aegypti, faz parte do nosso cotidiano. A doença de Chagas, disseminada pelo inseto barbeiro, açaí e caldo de cana, acomete quase cinco milhões de pessoas no Brasil; a crescente urbanização chagásica é decorrente da migração rural, forçada pela exclusão socioeconômica. A pior epidemia que grassa no Brasil não possui caráter infeccioso, nem tampouco parasitário, tem como etiologia a fome, a concentração de renda, a gatunagem explícita e a corrupção crônica. O controle dos males microbiológicos é possível com a educação em saúde e ambiental, fomentada pela participação consciente da população, aliada a estratégia científica transparente do poder público. Mas, a plenitude da saúde pública só será possível através de um padrão saudável de vida, com as necessidades humanas e fundamentais saciadas. • Médico Veterinário UFRRJ, Jornalista ABJ, Gerente de Zoonoses e Fauna Sinantrópica SNABS-MS.

A dor de quem cuida

A dor de quem cuida Ronaldo Rocha A fadiga por compaixão libera muita energia em forma de indulgência, sem a contrapartida da recompensa e da realização pessoal. Na prática veterinária ficamos próximos aos nossos pacientes, desde a neonatologia, a geriatria, até a sua morte, o que pode levar a um adoecimento emocional crônico pela fadiga da compaixão, condição bastante preocupante e ainda não tão conhecida. A lida com a doença e sofrimento sobrecarrega o emocional levando à depressão, exaustão, despersonalização e outras mazelas da alma. A veterinária detém a maior taxa de suicídios no mundo, sendo quatro vezes superior a da população em geral e o dobro quando comparada a outros profissionais de saúde. No Reino Unido seus alunos têm acompanhamento psicológico por algum tempo durante a vida acadêmica. O veterinário se envolve emocionalmente tanto com o sofrimento do animal quanto com a aflição e ansiedade do seu tutor. A “Síndrome de Burnout” ou da desrealização profissional é uma condição de intenso depauperamento mental e físico, decorrente das pressões oriundas do ambiente de trabalho. Esses profissionais vivem direta e intensamente o cotidiano com sofrimento, stress e cobranças. A baixa remuneração, a demanda contínua pela perfeição e a competição contribui para a sobrecarga emocional e seus agravos. Burnout é consequência de um esgotamento extremo. É comum entre enfermeiros, médicos agentes de saúde, assistentes sociais, policiais, professores e até entre padres e pastores.

O velho Macacu

O Velho Macacu Dr Ronaldo Rocha De todos os rios a desaguar na Baía de Guanabara, sou o maior em volume e absoluto em extensão. Na sombra do Pico da Caledônia, se unem o Apolinário e o Jacutinga pra me dar vida e turbulento desço a serra de Cachoeiras até Macacu . Após setenta e quatro quilômetros entre musgos, pedras e areias, desemboco no lodocento manguezal do meu estuário. Passei por tempos febris. O tifo amarílico e a terçã maligna assolaram o meu Vale, quando os moribundos eram levados para uma "boa morte" em São José. Com a epidemia da febre paludosa até Santana de Japuiba passou mal, perdendo para Cachoeiras o status de capital. No remanso do meu curso, grandes canoas eu vi navegar, às vezes, velejadas e outras, por varas empurradas. Tempos depois a buzina da rodovia calou o apito do trem. Com a chegada da bitola métrica, as velas não mais velejaram, e os vareiros, as canoas não varejaram mais. Entre embaúbas prateadas e arroxeadas quaresmeiras, corro para a minha foz, indo suprir com sedimentos o meu delta e matar a sede de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Paquetá e da minha cidade. Carrego na minha jornada, entre outros afluentes: o Batatal, o Souza, o Bengala, o São Joaquim, o Boa Vista, o Ganguri e o principal, Guapiaçu. Amanhã é o Dia do Ferroviário. Parabéns aos carpinteiros, torneiros, caldeireiros, ajustadores, ferreiros, maquinistas, foguistas e guarda-freios que entre limalhas, serragem, apitos e fumaças vivenciaram a "belle époque" do Macacu. Médico veterinário UFRRJ, Jornalista ABJ, Gerente de Zoonoses SNABS-MS.

Leishmaniose, o vetor

Leishmaniose, O vetor Dr. Ronaldo Rocha (Jornal Cachoeiras 13.05.2023) É uma enfermidade potencialmente fatal, comum a homens e animais. Se encontra em franca reemergência nas áreas populosas, resultante da migração rural com seus animais infectados, desarranjo urbanístico e frequente agressão ao meio ambiente. A "Leishmania", protozoário responsável pela doença, chega até nós através do “mosquito palha”. Diminuto inseto de asas peludas, que quase não voa, saltita no solo. A fêmea, depois de sorver o sangue do animal, regurgita o aspirado no homem, através da picada. O corcundo “cangalha" ou "orelha de veado", como também é chamado o mosquito; aprecia o sangue humano, canino, felino, equino e de outros vertebrados silvestres. De vida noturna procura o repasto sanguíneo no crepúsculo, onde são mais ativos. Nas cidades, o cão é o principal reservatório de "calazar" - a perigosa forma visceral da doença. A leishmaniose tegumentar ataca a pele, originando feridas rebeldes à cicatrização e deformidades nas cartilagens. É conhecida como “ferida brava”, “úlcera de Bauru” e "botão do Oriente". O crescente aumento de casos da leishmaniose visceral em algumas regiões, traz o holocausto canino à discussão, causando descontentamento e apreensão nos cinófilos. - (Continua na próxima edição) Médico Veterinário UFRRJ / Gerente de Zoonoses SNABS-MS
Leishmaniose - Prevenção *Dr. Ronaldo Rocha Diferente do Aedes aegypti, o “mosquito palha” não nasce na água parada. O "birigui", como também é conhecido, tem seu criadouro na decomposição orgânica no solo úmido, o que torna inviável o combate focal. As ações de contenção dessa parasitose são direcionadas à prevenção, salvaguardando a saúde humana e animal. A leishmaniose, é uma zoonose reemergente sem cura etiológica; com o tratamento medicamentoso, se obtém melhora clínica e redução da carga parasitária no organismo animal, impossibilitando a sua transmissão ao homem. Os que defendem o extermínio compulsório de cães soropositivos, alegam que as recaídas, após tratamento, não são incomuns; e que a grande inacessibilidade ao oneroso procedimento - hoje em torno de um salário mínimo - deixa vulnerável a saúde pública. A crudelíssima e inumana eutanásia de cães com "calazar", não mostrou eficácia até então. Os animais não são vilões, são também vítimas. As medidas de prevenção, são as mesmas adotadas no combate a dengue: Manter o domicílio e área circunvizinha saneados, investir na consciência sanitária e promover a educação em saúde ambiental. O uso de repelente e coleira anti-mosquito protegem o animal da picada do vetor "flebotomíneo". No futuro, a vacinação pública dos animais vulneráveis - que são depósitos da "Leishmania" no meio urbano - protegerá os homens e seus animais. *Médico veterinário UFRRJ e Jornalista ABJ.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Nossa água de cada dia

Nossa água de cada dia O paraíso das águas cristalinas possui um dos mais belos verdes do Estado, abundante água translúcida, encachoeirados rios, excelente água mineral e uma biodiversidade exuberante. Poucos lugares foram agraciados com tanta abastança natural, que preservada será no futuro o diferencial no desenvolvimento do município e promoção de melhor qualidade de vida para os seus habitantes. Existe uma preocupação global bastante justificável com relação à escassez de água potável e suas previsíveis consequências. Menos de um centésimo da água do planeta é doce e mais da metade imprópria para o consumo. A água não acaba, a sua disponibilidade e potabilidade é que diminuem com o desperdício, desmatamento, crescimento populacional desordenado e contaminação dos seus mananciais. A água é um importante meio de dispersão de enfermidades. Gastrenterite, verminose, hepatite, cólera, amebíase e leptospirose ainda flagelam os menos favorecidos. A contaminação fecal da água ainda é um desafio para a saúde pública nos países do terceiro mundo, grande parte das enfermidades que assolam suas populações são por micro-organismos por ela veiculados, os agravos provocados respondem por grande parte dos atendimentos e internações na rede pública de saúde. A água destinada ao consumo tem de ser submetida a parâmetros químicos, físicos e atender a padrões microbiológicos de potabilidade antes de saciar a sede das populações. Recentemente sentimos na pele o que não ter água. No esquecido sertão nordestino, Expedita caminha por entre xiquexiques, mandacarus e coroas de frade quatro horas todo santo dia, em busca de uma água salobra, suja e contaminada, que matará sua sede e suprirá suas necessidades. Num futuro, não tão distante, só os mais fortes terão a posse da água, que será moeda de troca e geradora de conflitos. Não desperdice, o Paraíso das Águas Cristalinas agradece.

domingo, 29 de setembro de 2013

A vida preservada no alto Guapiaçú

Resgatar e preservar espécies de floresta destruída é um trabalho árduo, é como dar vida ao que está fenecendo. Herdamos uma cultura onde o bem público não é muito respeitado, a todo tempo destruímos a mata e poluímos nossa água. A partir dos anos 80 a criação do IBAMA e depois o Parque Estadual dos Três Picos vieram melhor guardar a floresta atlântica, mas insuficientes investimentos e carências operacionais ainda deixam vulneráveis estes santuários verdes. Tem-se observado que quando o gerenciamento da floresta é realizado pela iniciativa privada as agressões são modestas, parece que há um maior respeito pela coisa particular. A Associação REGUA, criada em 2001 para proteger o remanescente florestal de mata atlântica na bacia hidrográfica do alto Guapiaçú, passa consciência ecológica à comunidade envolvida, principalmente junto às crianças e adolescentes, responsáveis pela floresta do amanhã. Entidades de pesquisa e universidades buscam conhecimentos num habitat de riqueza incomensurável, com espécies endêmicas e outras nem sequer catalogada. Guarda parques formados na própria comunidade, alguns ex-caçadores, mantém vigilância constante contra a caça ilegal e o seqüestro de palmitos, orquídeas, bromélias e pássaros. Desde sua criação ocorreu uma redução drástica dos ataques ao bioma. O maior primata da Américas, o arborícola “mono carvoeiro’, a beira da extinção é endêmico da mata atlântica, não sendo encontrado em nenhum outro lugar do mundo. A fragmentação do seu habitat natural e a caça predatória quase o dizimou. Sua freqüente aparição na reserva mostra o grau de conservação do ecossistema abrigado pelo projeto. Pântanos drenados no passado para o plantio e pecuária, restaurados, abrigam uma rica heterogeneidade de aves, peixes, anfíbios, répteis e mamíferos como o jacaré de papo amarelo e a capivara. Nos quase sete mil hectares montanhosos da Reserva Ecológica do Guapiaçú residem uma grande diversidade de espécies animais e vegetais. O reintroduzido Mutum do Sudeste, Tiês, Saíra, Choquinhas e Guaxe estão entre inúmeras outras espécies de aves que habitam a Reserva, treze delas compõe a listas das ameaçadas de extinção. Partes da mata que foram arrancadas são refeitas com as próprias sementes nela coletadas, depois do viveiro mudas ganham novamente a floresta. A meta, segundo Nicholas Locke, é reintroduzir no bioma 100 mil mudas nativas nos próximos cinco anos. Na próxima edição abordaremos a criação da primeira Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) de Cachoeiras de Macacu.