sexta-feira, 19 de maio de 2023
Até quarta feira
Até quarta-feira ...
Dr. Ronaldo Rocha
A cinzenta quarta-feira, diferente das demais, acordou melancólica, sem o desenrolar de confetes e o brilhar das serpentinas, com as ruas vazias onde o bloco passou, sem o cintilar da fantasia do amor de um encontro fugaz, que a cinza levou.
Pela avenida, antes transbordada de alegria, se vê gente que não canta mais, as inebriantes melodias de um canto de paz. A falsa alegoria dá lugar à real fantasia, à esperança não ritmada e ao desafinado enredo sem final.
Foram três dias de folia, de ilusão e euforia, que amanheceu com fragmentos de sonhos na calçada. Era carnaval.
No silêncio, o mestre-sala desacompanhado, a colombina descolorida, a lágrima do pierrô despedaçada, e o rei momo sem trono, sem coroa, e sem mais nada.
Os foliões, em outros carnavais desfilarão e, com outras máscaras suas fantasias cobrirão. Que novamente desmancharão nas cinzentas quartas-feiras que virão.
* Médico Veterinário UFRRJ / Jornalista ABJ / Perito Judicial CLRJ / Gerente Zoonoses e Fauna Sinantrópica SNABS-MS / Thought Field Therapy I. CALANGES TFT.
O perigo nas chuvas
O perigo nas chuvas
Dr Ronaldo Rocha
Os ratos albergam perigosos microrganismos, que provocam graves enfermidades no homem e animais. Em tempos de chuvas intensas, alagamentos e enchentes as bactérias da leptospirose emergem das tocas, bueiros e esgotos aumentando a incidência desta zoonose, tornando a água e a lama um veículo importante na sua transmissão.
De alta letalidade provoca no organismo de suas vítimas importantes lesões, hemorragia e icterícia que dá a pele e mucosas uma intensa tonalidade alaranjada. Também conhecida como febre dos pântanos, febre dos arrozais, e tifo canino; sendo hoje termos inadequados e em desuso. Os animais sinantrópicos, selvagens e domésticos são seus hospedeiros essenciais e o homem seu hospedeiro acidental e terminal, dentro da cadeia de transmissão.
Os principais reservatórios das leptospiroses são: o rato do esgoto ou ratazana, o rato do telhado ou rato preto e com menor relevância o camundongo. A ratazana, "Rattus norvegicos", carreia a Icterohemorragiae, a mais patogênica dentre as Leptospiras.
O homem se contamina pelo contato com a urina dos animais infectados, vale lembrar que cães, porcos equinos, bovinos, ovinos e caprinos também albergam essa bactéria. A penetração do germe ocorre através das mucosas e da pele lesionada ou imersa por longo período na água contaminada. Em Aracaju, presenciei um óbito de um homem que contraiu a doença ao beber refrigerante direto na boca da garrafa.
A prevenção é voltada a antirratização, que são medidas ambientais voltadas a inibir a proliferação; e a desratização com a eliminação direta dos ratos por meios mecânicos, usando ratoeiras, e raticidas.
A contaminação pela ingestão de água ou alimentos raramente ocorre, pois a bactéria não sobrevive na acidez do trato digestivo.
No Brasil não há vacina para uso humano. A vacina utilizada em animais visa a saúde do animal e não a saúde pública; fornecendo-lhes proteção contra a doença, mas não contra a infecção. Mesmo assintomático podem apresentar leptospirúria, que é a eliminação do patógeno pela urina.
Médico Veterinário UFRRJ /Jornalista ABJ / Gerente de Zoonoses e Fauna Sinantrópica SNABS-MS / Perito Judicial CBETA-RJ / Thought Field Therapy INSTITUTO CALANGES-SP
Velhos escorpiões
Velhos escorpiões
(Jornal Cachoeiras 04.03.2023)
Dr Ronaldo Rocha
Vi pela primeira vez, esses artrópodes, quando assisti aos dez anos de idade no Cinema Brasil, a película espanhola “Marcelino pão e vinho".
Os escorpiões habitam a Terra bem antes da humanidade, viram o surgimento do dinossauro e presenciaram a sua extinção.
Habitam desde as úmidas florestas, até os desertos mais áridos, só não na Antártica.
Geralmente, são encontrados em cemitérios, terrenos baldios, entulhos e no lixo. No verão, os acidentes com esses aracnídeos são mais evidentes. As asquerosas baratas são seu prato predileto. Dizem que cometem suicídio quando em apuros, principalmente quando cercados por fogo, o que não é verdade. Podem ficar sem comer por até um ano, embaixo d'água por dois dias e sobreviverem.
Possuem uma picada bastante dolorosa; das espécies brasileiras, as mais peçonhentas são as amarelas: Tityus serrulatus e Tityus stigmurus, com seus venenos neurotóxicos; o "serrulatus" se reproduz por partenogênese, não necessitando do macho para a fecundação.
No Livro do Apocalipse, há uma citação a eles relacionada: - “A agonia que eles sofreram era como a picada do escorpião. Naqueles dias, os homens procurarão a morte, mas não a encontrarão; a morte fugirá deles".
Em caso de acidente com esses escorpionídeos, nunca use torniquete, pó de café, cachaça ou querosene e não queime ou corte o local afetado. Limpe-o com água e sabão e procure atendimento médico; levando se possível e com cuidado, o escorpião, para identificação.
Médico Veterinário UFRRJ /Jornalista ABJ / Gerente de Zoonoses e Fauna Sinantrópica SNABS-MS / Perito Judicial CBETA-RJ / Thought Field Therapy INSTITUTO CALANGES-SP
Nossos campos de concentração
Nossos "campos de concentração"
Dr Ronaldo Rocha
No primórdio do século passado, uma grande seca assolou o Nordeste. Milhares de flagelados, castigados por um sol escaldante, vagaram em direção à alguma cidade ferroviária na esperança de pegar um trem rumo a capital do Ceará, quando foi suspensa a venda de passagens, evitando que chegassem ao seu destino.
Por quilômetros a fio, homens, mulheres e crianças, marcharam sobre os cascalhos da inóspita caatinga. Entre xique-xiques, catingueiras e mandacarus, um cordão de sofrimento, a fugir da epidemia da fome e da morte, singrava o sertão sob o canto do acauã e a lamúria do caboré.
Foram sete campos de concentração construídos no Ceará, sendo o primeiro o de Alagadiço na capital; tempos depois no interior, outros foram criados: Quixeramobim, Crato, Ipu, Senador Pompeu e Cariús.
Os desafortunados que lá chegavam, sempre vigiados, não mais podiam sair.
Forçados a um trabalho árduo, construindo estradas e açudes, recebiam em troca café torrado no sangue de boi, um punhado de farinha, um pedaço de rapadura e, vez ou outra, uma bolacha ou um naco de jabá.
Eram vestidos com sacos de farinha, seus cabelos eram raspados e viviam submetidos a condições insalubres.
O isolamento da indesejada massa de retirantes, foi acirrado pelos governos federal e estadual. Dados oficiais estimam que perto de 80 mil pessoas passaram por esses campos.
Embora não fossem propriamente de extermínio (como os campos alemães), tinham o objetivo de isolar os desvalidos, que tentavam fugir daquela terrível estiagem.
A multidão socialmente alijada, chegou na cidade no momento em que a elite de intelectuais e empresários cearenses colhiam os frutos do "boom" da exportação de algodão.
A morte era rotineira: de enfermidade, sede e fome. Foram tão marginalizados que até seus cadáveres eram sepultados em um cemitério à parte, longe dos demais mortais.
Como em Canudos de Antônio Conselheiro, o sofrido sertanejo foi mais uma vez vítima da configuração social de um país preconceituoso, excludente e desigual.
Médico Veterinário UFRRJ /Jornalista ABJ / Gerente de Zoonoses e Fauna Sinantrópica SNABS-MS / Perito Judicial CBETA-RJ / Thought Field Therapy INSTITUTO CALANGES-SP
O melhor amigo
O melhor amigo
Dr Ronaldo Rocha
Quando se sentir vazio, inseguro, desmotivado e com dificuldade pra dormir, pode ser falta de um verdadeiro amigo, descompromissado, companheiro e fiel. Aquele que suavize suas ansiedades e seus medos, fortalecendo a autoestima, aliviando a depressão e lhe proporcionando uma melhor sintonia na sua relação com o mundo que lhe rodeia. A companhia de um cão, gato, ou outro pet, pode reverter as mazelas somatizadas no seu corpo resultado do emocional em desalinho.
Uma sadia relação com nossos irmãos de "reino" estimula a produção dos neurotransmissores: serotonina e dopamina, hormônios relacionados ao bem estar e à estabilidade do humor, reduzindo o stress e equilibrando outras desordens.
Nas crianças, o convívio com os animais de estimação, é um coadjuvante na formação da personalidade, no desenvolvimento social, na expressão da afetividade, na relação com o meio ambiente e na lida com as regras da convivência.
Na terceira idade, essa proximidade supre a lacuna do isolamento, da solidão, da necessidade de afeto, e mitiga a sensação de abandono e inutilidade.
Adote um animal, verá que sua vida não será a mesma. "Mens sana in corpore sano".
Médico Veterinário UFRRJ /Jornalista ABJ
O maldito mosquito
O maldito mosquito
Dr Ronaldo Rocha
No século retrasado, de carona nos porões dos navios negreiros, o mosquito desembarca em solo brasileiro. Tempo em que os primeiros surtos de dengue e febre amarela aconteceram no Paraná e Rio de Janeiro.
Em 1955 o Brasil consegue se libertar do Aedes aegypti (que em latim significa: o maldito do Egito), resultado de uma forte campanha alicerçada pela Divisão de Saúde Internacional da Fundação Rockefeller.
Por iniciativa de sanitaristas brasileiros, foi lançada uma campanha continental para erradicar o vetor quando, além do Brasil, outras nove nações ficaram livres de suas picadas, corroborada pela OPAS - Organização Pan-americana de Saúde.
Contudo a campanha não foi bem sucedida em todo Continente, tanto que, em 1967 o pernilongo-rajado vindo das Guianas aterrissou no Pará, ou dentro de uma embarcação atracou na zona portuária de Belém. Hoje sua fêmea faz seu repasto sanguíneo do Oiapoque ao Chuí.
Após a erradicação, o governo brasileiro esmoreceu as ações de controle com a redução drástica do pessoal mata-mosquitos.
O Caribe e a América Central tiveram problemas quando o mosquito sanguinário ficou resistente ao inseticida organoclorado DDT, hoje em desuso devido sua alta toxicidade, mas muito utilizado na época.
Mesmo libertos do inseto, a reinfestaçao não pode ser descartada, pois temos uma vasta extensão fronteiriça com países que com ele convive.. Resultados absolutos, só com o envolvimento de todas as nações vítimas das Arboviroses pelo Aedes transmitidas.
Há registros de dengue em todos os países das Américas (só não no Canadá), Oceania e Ásia. Os Estados Unidos ainda não conseguiram dele se libertar.
Sendo a expulsão do mosquito, a curto e a médio prazo quase utópica, só nos resta conter sua densidade populacional, o que requer um contínuo trabalho educacional e participação consciente de toda sociedade nas atividades de combate.
Sem água parada não tem mosquito e sem mosquito não tem dengue, zica e nem chikungunya.
.
O bioma esquecido
O bioma esquecido
Dr Ronaldo Rocha
A Caatinga abrange o Nordeste e, um pedacinho do Sudeste no norte de Minas. É o semiárido mais biodiverso da Terra, possui um endemismo que pouco se conhece e uma origem até agora desconhecida.
Os cactos que permeiam aquela aridez pedregosa, vieram dos Andes, trazidos por aves dispersoras.
Inúmeras espécies, vegetais e animais, são endêmicas, não encontradas em nenhum outro lugar. De exuberante biodiversidade, o semiárido nordestino não parece um bioma, mas um agregado deles. A falta d'água faz seu verde esbranquiçar, daí o nome dado pelos índios tupi-guaranis: Caa (branca) e tinga (mata).
É nos penhascos da Toca Velha, onde mora a quase extinta, hoje preservada, "ararinha-azul de lear". Volitando no céu do Raso da Catarina, onde estive quando em visita a Antônio Conselheiro no Parque Estadual de Canudos, semiárido baiano.
São seus habitantes: o gato maracajá, o mocó, a asa branca e o carcará, entre as macambiras, mandacarus, xique-xiques, coroas de frade e umbuzeiros.
Sempre esquecida, a Caatinga é castigada a cada quatro décadas por uma terrível estiagem e constantemente pela leviandade humana. O que a "mata branca" mais teme é ser desertificada, perder o canto do acauã e ser transformada num averno de areia.
A cabroeira do sinistro Lampião, os "currais do governo" do Ceará e o beato Antônio e seus conselheiristas, foram protagonistas de tempos sanguinários que avermelharam o árido solo do sertão nordestino..
Assinar:
Postagens (Atom)