sexta-feira, 19 de maio de 2023

Vem chegando o verão

Vem chegando o verão Ronaldo Rocha Banho de rio de montão, loira gelada no litrão e fogoso amor no coração. Seria uma calorosa estação se o pernicioso Aedes aegypti, não aparecesse na contramão. Uma única fêmea pode produzir centenas de mosquitinhos na sua ovoposição. É só ter água acumulada no lixo do quintal ou uma cisterna sem tampa a disposição. Durante o frenesi da reprodução, atraídos pelo dióxido da transpiração, o mosquito finca seus 47 dentes em nosso corpo, sorvendo o sangue que o ajudará na eclosão. Quase a totalidade dos focos do mosquito da dengue e febre amarela, são formados em condições artificiais, aquelas que produzirmos por maus hábitos, desmazelo sanitário e por falta de atenção. A eficácia no combate a esses vetores de doenças, se dá através do envolvimento da população nas atividades de controle, tendo na vanguarda a educação em saúde e a consciência ambiental. Estar vigilante com relação a qualquer condição propícia à formação de focos do egípcio mosquito, desde uma descartada tampinha de refrigerante até o desleixo no trato com a piscina, é nossa obrigação. Até a futura erradicação, só nos resta reduzir a níveis seguros sua população. Sem água parada não tem mosquito, sem mosquito não tem vírus e sem vírus não tem dengue, zyca e chicungunha no verão. Seja consciente, colabore com o agente de endemias em sua ação, abrace-o nessa importante missão.

O trágico fim de um espetáculo

O trágico fim de um espetáculo Ronaldo Rocha Perto do Natal de 1961 o time do Botafogo, campeão por antecipação perdia, com Mané Garrincha, a invencibilidade do campeonato carioca para o América no Maracanã. Em Niterói mais de três mil pessoas, a maioria crianças, assistem o espetáculo inaugural do "Gran Circus Norte Americano". No momento da apresentação dos trapezistas, um grito de "fogo" ecoa do picadeiro; aglomerando as pessoas em pânico na única saída existente, quando um parafinado toldo em chamas cai encobrindo-as. Apavorados os elefantes pisoteiam umas; mas salvam outras ao romper a lona permitindo a fuga. Com meu saudoso pai Taciano, desembarquei na estação de General Dultra onde presenciei enfileirados corpos carbonizados, depois levados para um anexo que o palhaço Carequinha ajudou a construir no cemitério de Maruí. Como tudo começou, é uma incógnita. Dequinha, um maconheiro viciado em confissões que ganhava a vida vendendo pintinhos coloridos no terminal das barcas foi detido e responsabilizado; morreu ao fugir da cadeia em 1973. Seu comparsa Bigode, o que jogou álcool na lona para ele riscar o fósforo, ficou dez anos comendo de graça na prisão. Sobre a origem do incêndio foram levantadas outras possibilidades: ponta de cigarro, faísca do trem e curto circuito A atriz Gina Lollobrigida doou sangue, o presidente Jango chorou e o Papa João XXIII pelas vítimas rezou. Em greve o hospital Antônio Pedro pouco socorreu e o recém formado Pitangui mostrou que a cirurgia plástica não era só cosmética. O Gentileza José Datrino, o que profetizou que “o cigarro é a chaminé do capeta’, num momento epifânico acampa no local da fatalidade e entre frases desconexas, planta flores sobre as cinzas e amontoa os calçados perdidos na tragédia. Wilson Vieira, delegado de polícia de Cachoeiras de Macacu, com seu Jipe numa atitude solidária angaria remédios e outros itens necessários. Quarenta anos depois o "Gran Circus" mudou para “Lê Cirque”. Seus proprietários responderam por maus tratos aos animais. Foi a maior tragédia circense do Brasil, onde perdi dois familiares, que hoje teriam a minha idade.

Na rota do cangaço

Na rota do cangaço Ronaldo Rocha Há quatro anos em duas rodas me aventurei e sem destino cinco milhas eu andei. Em Canudos de Antônio Conselheiro, Angicos de Virgulino Lampião, Francês das Alagoas e Piranhas no sertão. No esturricado Alagadiço Zé baiano eu não vi, em Vargem Grande do Cabeço um assalto quase sofri e em Jeremoabo carne de bode no pirão de leite comi. Na prainha de Canindé que Domingos afogou, na Croa de Sergipe o Goré me atacou e no Velho Chico o Gaiola não mais singrou. Em Caraíva de Trancoso o luar não apagou e na Pedra Furada da Restinga de Maraú a morena me encantou. Sob o sol da caatinga na sombra da Braúna me abriguei, no espinho do Facheiro me espetei, em Angicos com a Coroa de Frade me deparei e com o suco da Mangaba minha sede eu matei. Em Itamarajú da Bahia parte minha ficou, mas a outra me acompanhou, aqui a viagem acabou mas a estrada da vida não me parou. (Com Marcelo Poubel e Rosemary Rocha em dezembro de 2018)

A dor animal

A dor animal Ronaldo Rocha Se no homem a dor pode ter relação com culpas e resgates, o que dizer nos inculpados animais que dela também padecem. A dor é um instinto de preservação, a insensibilidade no corpo físico seria incompatível com a vida. Segundo Platão, dói quando a harmonia dos elementos que compõem o ser vivo é comprometida e, vivendo em equilíbrio com a natureza, o homem dela se desvencilha. Epícuro, profetizou a dor como conseqüência da busca do prazer vulgar e desmesurado. Cristo, pregou a não concepção de dor-punição ao bem aventurar os aflitos, assinalando que o sofrimento seria uma oportunidade de purificação da alma. Para Hipócrates, sedar a dor era obra divina - “Sedare Dolorem Opus. Por ter o homem consciência definida, a excitação psíquica decorrente da dor auxilia no despertar do princípio inteligente, uma reação aos abusos do livre arbítrio, e nele, a que mais dói é a dor moral. A algia já foi relacionada à maldade, às trevas, aos demônios e à magia, era amenizada por sacerdotes, shamans e feiticeiros, que a considerava um inimigo que deveria ser execrado com expiações, rituais e até sacrifícios Por não verbalizar, fica difícil o entendimento desse sofrimento nos animais; sua detecção depende mais de mudanças comportamentais do que de sinais específicos; evidenciadas pela depressão, gemido, inapetência , automutilação, imobilidade, agressividade, tremores e taquicardia. Sua debelação além de uma questão ética, tem a ver com sentimentos humanitários. Hoje a terapêutica antiálgica dispõe de procedimentos que proporcionam bem estar aos animais vitimados pela dor.

Não abandone seu animal

Não abandone seu animal Ronaldo Rocha É um retrocesso sob a ótica evolutiva o que acontece com relação ao aumento do número de animais abandonados. Embora poucos, os que conseguem perceber a extensão do problema tem-se organizado na busca de condutas e ações que promovam saídas humanas e resolutas para o problema. A presença de cães combalidos e famintos nas ruas das cidades é uma questão humanitária, ambiental e de saúde pública. Sabemos que algumas zoonoses como a leishmaniose e a raiva podem ser transmitida por estes animais. Ações isoladas atenuam de certa forma as mazelas impostas; porém medidas voltadas a conscientização e posse responsável têm de ser priorizadas, elas operam na gênese do distúrbio. O desenvolvimento humano é diretamente proporcional ao amor e ao respeito à vida animal, aqueles que desconhecem tal premissa, cairão na roda involutiva dos infernos dantescos. É triste ver um cão esperando que uma alma piedosa passante não o ignore. Animais doentes vagando em áreas urbanas desarmonizam com o despertar da consciência. Um dia o homem conhecerá o íntimo dos animais, e nesse dia, um crime contra um animal será considerado um crime contra a própria humanidade. Abandonar, não alimentar, espancar, envenenar, manter acorrentado, mutilar e ferir os animais é considerado maus tratos e ficam os infratores sujeitos a penalidades conforme o artigo 32 da Lei Federal 95.605/98.

Deixe o pássaro volitar

Deixe o pássaro volitar (Jornal Cachoeiras 22.01.2023) Ronaldo Rocha Desrespeitar ou agredir de qualquer forma o meio ambiente, e principalmente ergastular em exíguas gaiolas os que volitam no firmamento, é parte da maldade e ignorância humana, tendo relação direta com a samsara e a involução. Os pássaros tem uma importância vital na vida da floresta, sem eles muitas espécies vegetais não existiriam. São importantes polinizadores e dispersores, a diminuição de suas populações, seja pela clausura ou outras atitudes inconsequentes, além de mostrar a insanidade de seus algozes, comprometem a estrutura dos ecossistemas, inclusive nas matas preservadas. É uma insensatez aprisionar os seres alados que habitam os céus. Ouvir seu canto e apreciar seu encanto é possível, sem ter que encarcerá-lo em uma nefasta gaiola. A introdução de animais exóticos, o crescimento das lavouras transgênicas, a utilização desenfreada dos agrotóxicos, as queimadas e os desmatamentos também afetam a vida dos pássaros. Algumas espécies de pássaros estão na rota da extinção. O tietê-coroa foi banido da vida da floresta e o sabiá-pimenta, o bicudo e o chanchão voam na contra mão.

Educação e saúde

Educação e Saúde Dr. Ronaldo Rocha As enfermidades de caráter zoonótico, aquelas comuns a homens e animais, emergem e reemergem no meio urbano quando da presença de seus vetores ou propagadores, por falha no dimensionamento da prevalência ou por descuido nas atividades de combate e vigilância. A inconsequente interferência nos biomas terrestres facilita a migração dessas entidades mórbidas, causadoras de doenças no homem e nas espécies domesticadas; os vírus, as bactérias e outros patógenos, que dos animais silvestres chegam ao organismo humano, à fauna urbana e vice- versa. Vulneráveis sempre estaremos com relação às endemias, epidemias e pandemias se nossa relação com a natureza não for repensada. A Covid nos mostrou sobre o que está por vir, se a tênue fronteira, urbana silvestre, não for repensada, respeitada e preservada. O deflorestamento, a irresponsável fragmentação e contaminação do solo como acontece com a gananciosa garimpagem, e o desorganizado processo de urbanização, facilitam a proliferação de mosquitos, ratos e outros sinantrópicos; responsáveis por morbidades e letalidades no âmbito da Saúde Pública e de instabilidade no seu Sistema. A Educação em Saúde e Ambiental, voltadas principalmente à geração escolar, será a grande virada para o vital equilíbrio do homem com o seu meio. * * Médico Veterinário com formação em: Gerenciamento em Zoonoses, Perícia Judicial, Jornalismo e TFT (Thought Field Therapy).